quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Crise Existencial provocada pelo Aborto Espontaneo


Para muitas pessoas, a gravidez e a maternidade são acontecimentos naturais na vida de qualquer mulher, que decorrem sem grandes sobressaltos ou problemas. Para muitas pessoas, ter filhos significa alcançar um pequeno pedaço de imortalidade. A fertilidade é venerada em quase todas as culturas e a gravidez é um marco no desenvolvimento adulto, é uma ponte entre gerações e uma ponte para o futuro, rica em simbolismo. A gravidez é um acontecimento que se estende a toda a família, modificando rapidamente o relacionamento dos futuros pais com os seus próprios pais e todos aqueles que os rodeiam. A chegada de um filho marca o final do período turbulento da adolescência e afastamento da família, permitindo a reconciliação e a aproximação à família na idade adulta.


Tanto as meninas como os meninos são expostos a pressões subtis ao longo do seu desenvolvimento para terem filhos. As meninas aprendem a brincar com bonecas, a cuidar delas, a segurá-las de forma correcta exercendo um papel maternal desde os primeiros anos de vida. Os meninos antecipam desde cedo as alegrias de criar os seus filhos, de os levar ao futebol, de praticar desporto, etc. Na idade adulta, a maior parte dos casais deseja ter filhos, presumindo a sua capacidade para os ter.


Para algumas mulheres, a gravidez não é bem sucedida e, por vezes, surge o aborto espontâneo. A morte de um bebé é sempre um choque, mesmo que seja um bebé que não se chegou a conhecer. Não faz parte da lei natural de vida, não é algo que seja esperado, pois os bebés representam o início da vida e não o final. Por causa desta enorme contradição, a morte de um bebé é tão difícil de acreditar e aceitar.


A sociedade nem sempre aceitou (e provavelmente ainda não aceita) que o sofrimento de perder um bebé por aborto espontâneo pode ser comparável, em termos de trabalho de luto, à perda de uma criança com alguns anos de idade. Independentemente de se tratar de uma criança com um ano de idade, uma criança que viveu apenas algumas horas ou um feto com malformações, existe sempre uma reacção de sofrimento emocional, que implica depois a existência de um ajustamento psicológico, tanto individual como familiar.


Ao aborto segue-se um trabalho de luto, que poderá trazer maior ou menor tumulto, conforme a relação da mulher com este bebé, que não chegou a nascer. Além da perda física, existe a perda afectiva. Perdemos um filho que não chegámos a conhecer, a embalar, a alimentar, a abraçar e, com ele, perdem-se as ilusões e sonhos que tivemos para o seu futuro.


É importante que estas mulheres entendam que não estão sozinhas. O aborto espontâneo ocorre em cerca de 25% das gravidezes humanas. É normal que sintam uma dor enorme e difícil de suportar. O tempo é um grande aliado e, com o passar do tempo, é possível ultrapassar a dor.


O trabalho de luto é um processo doloroso. A pessoa passa por fases onde surgem sensações fortes, que parecem permanecer para sempre. É importante que a dor seja vivida, que os sentimentos não sejam ignorados, pois a dor faz parte do processo de recuperação. A dor da perda de um filho vai acompanhar a pessoa durante toda a sua vida, mas com o tempo ela vai aprender a encarar esta dor de forma diferente, aprendendo a acreditar que pode tentar novamente.


Todas as pessoas que passam por um processo de luto, seja ele qual for, passam por várias etapas, que fazem parte do processo normal de adaptação e que seguem um curso previsível (apesar de, naturalmente, existirem algumas diferenças de pessoa para pessoa):



- Negação: Quando a perda é muito dolorosa, é normal que seja difícil acreditar no que está a acontecer. A negação permite uma reavaliação da situação de perda, enquanto a pessoa ainda não está preparada para a aceitar.


- Dor: A recuperação ocorre através da dor. A dor pode manifestar-se sob forma de depressão e tristeza, mas também pela diminuição das defesas do organismo (originando gripes e constipações), dificuldades ao nível de memória e concentração, raiva contra si mesma, contra o pai do bebé ou contra Deus.

- Culpa: Podem surgir sentimentos de culpa relativos a acontecimentos que ocorreram durante a gravidez ou pequenas negligências, que são formas de procurar razões para o sucedido.


- Aceitação e adaptação: À medida que se aprende a aceitar a morte do bebé e a reconhecer que esta experiência originou uma mudança irremediável, a dor vai diminuindo. A memória da gravidez e do bebé passará a ocupar um lugar significativo na vida e no coração da mulher. Gradualmente começará a sentir-se melhor e voltará às suas actividades quotidianas habituais. A dor da perda de um bebé nunca desaparecerá por completo, mas pode ser ultrapassada e diminuir, deixando espaço para novos planos para o futuro.



INDICAÇÃO DE LEITURA


WALSH, Froma; McGOLDRICK, Monica. Morte na Família: sobrevivendo às perdas.

Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. p.46 a 67

NICHOLS, Michael P.; SCHWARTZ, Richard C. Terapia Familiar : conceitos e métodos. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. 474p

A Vivencia do Luto Familiar


O que se pretende falar aqui são partes de indagações feitas frente ao luto de um filho, sem maior pretensão teorizante e, como tais, na expectativa de que assim sejam ouvidas.. Talvez seja um convite de discussão ao tema: "vamos falar da morte?". Esta, que é tabu maior que o sexo, maior ainda por tratar-se da morte de um filho - dor que se recobre em silêncio, por se tratar de uma dor inominável.
O luto é um longo caminho, que começa com a dor viva da perda de um ser querido. A pessoa enlutada vive um sentimento amoroso permeado por uma saudade imensurável e envolto numa dor indizível face à perda abrupta. É quando duas situações se encontram absolutamente inseparáveis: o amor e a dor. Amor pelo excesso de investimento colocado na pessoa que se foi. E dor porque esse suporte real nos deixou. O sentimento de abandono e o caráter definitivo de sua ausência são os mais devastadores que se têm, ao se deparar com a realidade da mais pura saudade. A esse respeito, escreveu Nasio: "As manifestações da dor - abatimento, grito e lágrimas - a mantêm como se a pessoa que sofre estivesse arrastada pela prova dolorosa ..( ) Querem sofrer porque a sua dor é uma homenagem ao morto, uma prova de amor" .

As perdas costumam ser nomeadas para que possam ser minimamente suportáveis. Ao perder uma mulher, alguém passa a ser viúvo; aquele que perde os pais, órfãos; cônjuges que se separam, divorciados; mas as mães que perdem seus filhos não encontram sequer algo para nomeá-las.
Certa psicanalista contava sobre os pacientes que sofrem de dor fantasma – a dor resultante da perda de um membro do corpo que se constitue num desafio para os médicos. O "membro fantasma" lateja, coça, aquece, esfria, dói, enfim, a dor é viva, presente, embora o membro esteja ausente, morto. Só o tempo permite aos pacientes conviver nesse estado. "Penso que a dor da perda de um filho é próxima dessa”, dizia.
Ora, estamos falando de um membro do corpo, que dirá de um filho saído de nossas entranhas que, como diz o poeta Chico Buarque: "Oh,pedaço de mim, oh pedaço amputado de mim...!" É uma mutilação! No texto: "Luto e culpa na análise e na vida", de Marco Antonio Coutinho Jorge, o autor relata sobre uma paciente em trabalho de luto pela morte do marido. Conta que abandonara o tratamento anterior, pois a analista fazia intervenções impertinentes, como: "Já vem você com seu lado melancólico?” “Já vai começar com esse discurso histérico?". Segue o autor:
"O que se pode observar de saída é que tais intervenções desautorizavam o sofrimento dessa mulher e insinuavam simultaneamente, que ela se aproveitava dele para usufruir de forma particular .

Diante dal perda, há aqueles que se jogam no trabalho de forma obsessiva, quando este o permite. Há outros que ficam alheios,impotentes, paralizados!

O filme "O quarto do filho" relata a experiência da morte do filho de um psicanalista, e este se vê na condição de afastar-ser da clínica por tempo indeterminado.
Marie-Hélène Brousse, em seu livro nos fala sobre a terapeutização da vida, que vivemos numa sociedade dos tratamentos da dor de existir. Atribui uma vitória à terapêutica, que está em todo lugar e de todas as formas.

O luto não é terapeutizável, não há remédio para essa dor. Lembro de uma revista que li, cujo título da reportagem era: “A dor que não termina”. São relatos de pais que perderam seus filhos de maneira trágica e os relatos da reação particular que cada um teve. Desde aquele que ao ver seu filho morto por atropelamento e que o carrega nos braços para ser morto pelos carros que passavam, como aquela mãe que se recusou a comer desde a perda de sua criança vindo a falecer 4 meses depois de inanição. A reportagem começa justamente falando que o luto de quem perde filho é diferente de qualquer outro... e pode tornar-se insuportável o peso de tocar a vida adiante. A morte é sempre motivo de angústia e tristeza, mas a morte de um filho é uma tragédia contra a natureza, um desastre além da razão.

O historiador francês Philippe Ariès conta que até o final da Idade Média, não se guardavam sequer os retratos das crianças. Se elas cresciam e se tornavam adultas, a infância era um período sem importância em suas vidas. Se morriam cedo, não se considerava que aquela coisinha desaparecida fosse digna de lembrança. Era o período das epidemias, das pestes, das doenças que ninguém sabia como tratar, e a morte era tão comum, que era natural ter vários filhos para que só alguns sobrevivessem. Montaigne, filósofo do séc XVI, dizia: “perdi dois ou três filhos menores, mas sem desespero”.

Quanta distância para os tempos em que vivemos: famílias pequenas, poucos descendentes...Vivemos em um período desbussolado onde não se pode mais, como antigamente, encarar a tragédia como vontade de Deus. Diante de uma determinação superior, restava apenas se conformar. As mães, no passado eram poupadas de qualquer tarefa por um período de no mínimo um ano para se recolherem. Não há mais tempo para resguardo, nem para recolhimento. A licença de uma semana (até o sétimo dia) é o que é amparado por lei. Os tempos modernos, onde impera a ditadura da alegria não oferece espaço nem lugar para a dor, especialmente uma dor como essa. “Reaja!”, “Seja forte!”, “Não fale mais no assunto!”, “Aprenda uma lição com sua dor!”, “Não fique paralisado pela dor!”
“Enfrente!”, são imperativos ouvidos de modo inoportuno e impróprio.
Portanto, nada de fórmulas, ou de dizer como alguém deve reagir, ou fazer, ou dizer.
Aliás, não há muito o que dizer. Aliás, não há nada o que dizer.
A perda de um filho não é uma dor qualquer. Implica numa longa travessia de luto, reinventar a vida a cada dia e conviver diariamente com a saudade.
Respeitoso foi o apoio recebido de Romildo do Rego Barros que assim se expressou: "Não tenho a pretensão de saber como você está se sentindo, mas sei que as saudades podem, paradoxalmente, inspirar a nossa vida e nos empurrar para frente". Essa frase enigmática, a princípio, e até de um certo ponto pautada numa impossibilidade...
Outro questão que convém marcar é: que tempo há para o luto?
O luto é muito parecido com a depressão - afetivamente falando - mas esta é sem a perda real do objeto, Há cobranças estrondosas relativas ao tempo expressas como:: "Você ainda está chorando deste jeito?
Era preciso encarar, de frente, o que me parecia impossível: conviver sem o olhar e a voz desse filho tão amado.
Que tempo para o luto? Até Jesus chorou no túmulo de Lázaro. Então choro é sinal de que também amamos QUEM PARTIU PARA OUTRA DIMENSÃO.

As mães não deveriam chorar a morte de seus filhos. Ao concebê-los, deveriam receber, com carimbo do céu e assinado por Deus, uma certidão de garantia, para vê-los crescer, sempre saudáveis e felizes. Ao lado deles, poderiam comemorar suas vitórias, suas conquistas, e depois de muito tempo, quando sentissem a conclusão de seu ciclo de vida, elas teriam o direito de serem veladas por seus filhos, todos eles, a fim de seguir feliz sua viagem de reencontro ao Criador. Os filhos, para as mães, deveriam ser sempre vivos, pois não foram concebidos para a morte, mas para a vida. Nada neste mundo é mais triste, mais doloroso do que choro de mãe que perde um filho.
Elas não merecem isto. Nunca mereceram.

Jamais merecerão.

Melancolia........ Cecilia Meirelles


Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se enclinar
E ouço as cantigas
Do mar.
Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
Na morte.

sábado, 17 de outubro de 2009

Infinita Highway ( para meu amor ora distante ora próximo igual a letra desta musica)

Você me faz correr demais
Os riscos desta Highway
Você me faz correr atrás
do horizonte desta Highway
Ninguém por perto, silêncio no deserto
Deserta highway
Estamos sós e nenhum de nós
Sabe exatamente onde vai parar

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos nem objetivos
Estamos vivos e isto é tudo
E sobretudo a lei
Da infinita Highway

Quando eu vivia e morria na cidade
Eu não tinha nada, nada a temer
Mas eu tinha medo, medo desta estrada
Olhe só, veja você
que eu vivia e morria na cidade
Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor
Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava
E a noite eu acordava banhado de suor
Não queremos lembrar o que esquecemos
Nós só queremos viver
Não queremos aprender o que já sabemos
Não queremos nem saber
Sem motivos nem objetivos
Estamos vivos e é só
Só obedecemos à lei
Da infinita highway

Escute, garota, o vento canta uma canção
Dessas que a gente nunca canta sem razão
Me diga, garota: "Será o corpo uma prisão?"
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre
Se tanta gente vive sem ter como viver
Estamos sós e nenhum de nós
Sabe onde quer chegar
Estamos vivos sem motivos
Que motivos temos para estar?
Atrás de palavras escondidas
Nas entrelinhas do horizonte
Desta highway (?)
Silenciosa highway

Eu vejo o horizonte trêmulo
Tenho olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
É inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo "não corra"
Não morra, não fume
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes
Minha vida é tão confusa quanto a América Central
Por isso não me acuse de ser irracional
Escute, garota, façamos um trato
Você desliga o telefone e eu fico muito abstrato
Eu posso ser um beatle
Um beatnik ou um bitolado
Mas eu não sou ator
Eu não tô à toa do teu lado
Por isso, garota, façamos um pacto
de não usar a highway pra causar impacto.
110,120,160.
Só pra ver até quando o motor aguenta.
Atrás de palavras um chiclé de menta
e a sombra do sorriso que eu deixei,
na silencionsa highway

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Medo e Psicanalise


O medo é uma emoção intrínseca ao humano. Trata-se de uma emoção que acompanhou o curso evolutivo do homem, provavelmente, desde os primórdios da vida. O feto humano já reage com contrações quando estimulado no útero. Isso quer dizer que já no desenvolvimento intra-uterino o ser humano apresenta sinais de conduta individualizada que é o comportamento inibitório. Conhecemos esse comportamento com o nome de medo.

O medo é psicofísico. Toda vez que sentimos medo, imediatamente, nosso organismo apresenta reações características desse sentimento. Dependendo da intensidade do medo, podemos ter uma paralisação momentânea das funções cardíaca e respiratória. A seguir o coração dispara e a respiração acelera. Sobrevêm a palidez que é proveniente da retirada de sangue dos vasos periféricos. O suor pode inundar a pele. Se pudéssemos olhar o corpo internamente, dentre outras reações, poderíamos observar que as alças intestinais se dilatam e cessam as atividades motrizes do estômago. A secreção gástrica fica paralisada e relaxam-se todas as fibras musculares lisas em toda a extensão do tubo digestivo. Há uma abundante liberação de adrenalina na corrente sangüínea. Os vasos sanguíneos se contraem. Continuar...

O medo é, portanto, a mais visceral e talvez a mais antiga emoção do homem. O medo foi necessário para que a espécie humana se preservasse e, sem ele, provavelmente, seríamos uma espécie extinta há muito. Sempre que o ser humano se depara com uma situação que desperta medo, tende a fugir. Mas o homem não foge só porque tem medo, mas também, para livrar-se do sentimento de medo. Essa fuga, ao contrário do que possa parecer, não é uma atitude passiva, mas sim ativa onde o homem apropria-se de seus recursos para superar uma situação de perigo e dela libertar-se, preservando a vida. Entretanto esse comportamento pode ser interpretado de duas maneiras: Por um lado evita que o homem sofra alguns males colocando-o a salvo, por outro, impede que enfrente situações de conflitos que poderiam leva-lo a êxitos que ampliariam seu repertório experimental. Na timidez, por exemplo, as pessoas se protegem de um mal imaginário e ficam impedidas de viver plenamente as experiências que um contato afetivo poderia trazer.

Todos nós, ainda que não tenhamos nos detido para observar, sabemos que o medo é um dos mais eficientes professores que temos. Faz nos aprender com uma velocidade desconcertante. Vejamos um exemplo: Suponhamos que uma criança jovem está andando no quintal de sua casa e é mordida pelo seu cão. Durante muitos meses aquela situação traumática ficará na memória de forma a determinar o medo e a reação de fuga diante de qualquer cão. Ou seja, a criança ficará durante muito tempo aguilhoada pelo medo.

Só com o passar do tempo e na medida em que puder experimentar situações onde se certifique de que nem todos os animais reagem de forma agressiva e que a criança vai, paulatinamente, ganhando confiança para então diminuir o medo. Entretanto, há situações em que é muito difícil erradicar completamente o medo. Muitos medos se imprimem na mente de forma cumulativa e não puntiforme como o exemplo que utilizamos acima, tornando-se assim mais difíceis de serem identificados e tratados.

O medo exerce grande influência sobre tudo no psiquismo humano. Esse sentimento tem atravessado o tempo com o homem e ajudou-o a tecer sua história não só no sentido do progresso como também no sentido da maldade e da destruição. No sentido do progresso pode-se dizer que o medo fez com que o homem criasse cada vez mais condições para preservar-se. Criou recursos para proteger-se das feras, da fome e da instabilidade do tempo e de sua própria espécie. Saiu das cavernas para as choupanas, destas para casas de alvenaria e posteriormente criou castelos com altos muros e grossas paredes. Descobriu as ervas que curavam e muito mais à frente criaram-se os remédios que prolongam a vida. Criou armas, cada vez mais sofisticadas para a caça e defesa.


Indicações Bibliográficas


“A Negação da Morte”, Ernest Becker, Nova Fronteira, 1976.

“Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos”, Georges Duby, Editora Unesp, 1998.

O autor faz uma revisão histórico e social da Idade Média, em relação aos ao Medos contemporâneos. Feito em cinco capítulos onde fala da Miséria, Medo do Outro, das Epidemias, da Violência e do Além.

“O Medo à Liberdade”, Erich Fromm, Zahar Editores, 1978.

A Justiça Social e seu elo com a educação




Muitos hoje em dia falam em "justiça social"; alguns chegam mesmo a alegar que seja alguma espécie de direito humano imprescindível. Mas o que significa essa tal "justiça social"?

O próprio termo é equívoco, invertendo a ordem natural das coisas. Afinal, o termo "justiça" pareceria indicar que atualmente ocorre uma "injustiça" - que a distribuição supostamente natural eqüitativa dos recursos teria sido deturpada por capitalistas ávidos e/ou plutocratas malvados e/ou a classe média egoísta, de modo que alguns sempre ganhem injustamente mais do que outros. De acordo com os apólogos da tal "justiça social", os recursos deveriam ser distribuídos de modo mais igualitário entre todos os cidadãos de um país, ou, nos casos mais extremos, entre todos os habitantes do mundo.

Uma das mais importantes funções da escola é interagir e articular-se com as práticas sociais, e ao mesmo tempo, relacionar-se ao mundo econômico, político, cultural, e, ser uma fortaleza contra a exclusão social.

Gradualmente a escola deve tornar-se uma síntese entre a cultura experimentada e vivenciada no cotidiano, nas relações entre os pares, nos meios de comunicação, na família, no trabalho, enfim em todas as instituições que educam de maneira informal, e a cultura formal de conhecimentos sistematizados, cujo cerne está na escolarização (processo dentro de uma escola).

O professor tem aí seu espaço, com o papel fundamental de introduzir os alunos nos aspectos significativos da cultura e da ciência, como facilitador do conhecimento e mediador das ações interacionais. A importância da aprendizagem escolar encontra-se no subsídio pedagógico do professor, onde os alunos se apóiam para tomar conhecimento e formar idéias próprias sobre as informações que recebem provenientes da televisão, do jornal, dos vídeos, do computador, da cultura paralela ou extra-escolar. Assim, com o auxílio do professor se abastecem de ferramentas conceituais para analisarem a informação criticamente e atribuírem um significado pessoal e social. É nesse momento que, a escola fará a síntese entre a cultura formal (dos conhecimentos sistematizados) e a cultura vivenciada no cotidiano.

Essa escola deverá preparar-se para a sociedade tecnológica e informacional, implicando saber tomar decisões, interpretar e entender informações, ter caráter de pesquisa, saber trabalhar no coletivo, interferindo criticamente na realidade e transformando-a, preparando para a cidadania crítica.

O aluno, desta sociedade globalizante deve tornar-se um sujeito pensante (capacidades cognitivas, sociais e afetivas), visando ao desenvolvimento do refletir, de maneira que aprenda a construir e reconstruir conceitos, habilidades, atitudes, valores para resolver problemas, dilemas e circunstâncias da realidade.

Como não poderíamos deixar de citar o desenvolvimento integral dos educandos, o ensino/aprendizagem deve respeitar as individualidades, compreendendo que cada ser é único e auxiliando a se prepararem para serem sujeitos de sua história, praticando o respeito consigo mesmo. A escola da era da globalização, tecnologia e informação deve preparar o educando para intervir criticamente na realidade para transformá-la e não apenas para integrar-se ao mercado de trabalho. Esse aluno deverá ter o perfil do cidadão engajado na luta pela justiça social, pela solidariedade humana e para o exercício da cidadania compromissada com o bem comum, abrangendo questões raciais, das minorias culturais, da violência, do meio ambiente, das formas de exclusão social e, das formas de exploração do trabalho humano que ainda acontecem na sociedade capitalista.

O fortalecimento das lutas sociais e a vitória da cidadania dependem de uma abrangência, cada vez maior, de pessoas que possam tomar parte das decisões fundamentais que dizem respeito aos interesses individuais e coletivos. Aceitar sem discriminação a diversidade é o primeiro identificador para a luta pelos direitos humanos. É referência fundamental de mudança de mentalidade, de modificação da configuração do pensar, de sentir, de conduta em relação

domingo, 13 de setembro de 2009

O luto na perspectiva Freudiana

O luto é um processo mental destinado à instalação de uma perda significativa na mente. Segundo Kaplan (1997), o luto sem complicações é visto como uma resposta normal em vista da previsibilidade de seus sintomas e seu curso. O luto inicial manifesta-se freqüentemente por um estado de choque, podendo ser expresso como um sentimento de topor e de completo atordoamento. A parte perceptível deste processo se caracteriza, inicialmente, pela repetida rememoração da perda sempre acompanhada do sentimento de tristeza e de choro, após o que a pessoa acaba se consolando. Evoluindo,o processo passa a ser de rememoração de cenas agradáveis e desagradáveis, nem sempre seguidas de tristeza e choro, mas sempre com a consolação final. Kaplan (1997), segue comentando que é um processo sempre lento, longo e acompanhado de graus variáveis de falta de interesse pelo mundo exterior (tristeza), que vão diminuindo conforme o processo avança. O processo vai gradualmente se extinguindo com desaparecimento da tristeza, do choro e instalação da consolação e volta do interesse pelo mundo exterior. No final, a pessoa perdida passa a ser apenas uma lembrança, o sentimento de tristeza desaparece e a vida afetiva retoma seu curso voltando a ser possível novas ligações afetivas.

Para Freud (1916), "O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. “E segue dizendo que o luto normal é um processo longo e doloroso, que acaba por resolver-se por si só, quando o enlutado encontra objetos de substituição para o que foi perdido.”

"O trabalho de luto consiste, assim, num desinvestimento de um objeto, ao qual é mais difícil renunciar na medida em que uma parte de si mesmo se vê perdida nele” Mannoni (1995).

De acordo com Freud (1916), o trabalho de luto se realiza, de forma que toda libido é retirada das ligações com objeto amado, a realidade mostra que esse objeto não existe mais. Porém as pessoas nunca abandonam de boa vontade uma posição libidinal, nem mesmo na realidade quando encontra um substituto. Existe um período considerado necessário para a pessoa enlutada passar pela experiência da perda. Esse período não pode ser artificialmente prolongado ou reduzido, uma vez que o luto demanda tempo e energia para ser elaborado. Costuma-se considerar que o primeiro ano é importantíssimo para que a pessoa enlutada possa passar, pela primeira vez, por experiências e datas significativas, sem a pessoa que morreu (Kaplan 1997). Por outro lado, não podemos tomar isto como uma regra fixa, há muitos fatores que entram em cena, quando se trata de avaliar as condições do enlutado, seus recursos para enfrentar a perda e as necessidades que podem se apresentar. Para cada enlutado, sua perda é a pior, a mais difícil, pois cada pessoa é aquela que sabe dimensionar sua dor e seus recursos para enfrentá-la.

Para Freud e Melanie Klein uma das formas da pessoa liberar-se do luto é tendo a prova da realidade. Neste período a pessoa conseguirá se desligar e canalizar a libido para outro objeto.

Segundo Melanie Klein (1981), a dor sentida no lento processo do teste da realidade durante o trabalho penoso de luto parece ser devido, em parte, não somente à necessidade de renovar os vínculos com o mundo externo, mas também sim reexperimentar continuamente a perda, reconstruindo angustiosamente o mundo interno, que se sente estar em perigo de deterioração e colapso.

Entretanto Freud (1916), suspeita de que algumas pessoas, ao passar pela mesma situação de perda, em vez de luto, produzem melancolia, sendo esta uma disposição patológica do individuo. Para justificar essa premissa, o autor fez uma série de comparações entre o luto e a melancolia, tentando mostrar o que ocorre psiquicamente com o sujeito em ambos o caso.

Quadro teórico

Desde muito cedo, ainda bebês, segundo a interpretação de Melanie Klein (1981), a criança passa por um processo de interiorização quando elas começam ter relações primeiramente com a mãe, depois com seu pai e com outras pessoas. A criança ao incorporar seus pais, sente-os como pessoas vivas dentro do seu corpo, de modo concreto em que as profundas fantasias inconscientes são sentidas, elas são em sua mente, objetos interiores ou interiorizado.

Por isso todas as alegrias que a criança goza através da sua relação com a mãe são provas para ela que o objeto amado, dentro e fora do seu corpo, não esta lesado e não se transformara numa pessoa vingadora. O aumento do amor e da confiança através e a diminuição dos temores através de experiências felizes, ajudam a criança, passo a passo, a ultrapassar sua depressão e sentimento de perda (luto). (Melanie Klein, 1981).

A princípio, convivemos com separações temporárias, como por exemplo, a mudança de escola. Mas chega uma hora, que acontece a nossa primeira perda definitiva: alguém que nos é muito querido, um dia, se vai para sempre.

Segundo Kübler-Ross (1997), deve -se permitir que as crianças continuem em casa, onde ocorreu uma desgraça, e participem da conversa, das discussões e dos temores, faz com que não se sintam sozinhas na dor, dando-lhes conforto de uma responsabilidade e luto compartilhado. A autora segue ainda nos relatando que com isso a um incentivo para que encarem a morte como parte da vida, uma experiência que pode ajuda-las a crescer e amadurecer.

Freud, o trabalho de luto consiste principalmente no teste da realidade, ou seja, restabelecendo o contato com o mundo real, descobre e redescobre que a pessoa amada não existe mais. Já Klein o teste da realidade não se refere só a realidade externa, mas também a realidade interna. Mostra que a pessoa amada perdida estava identificada com os objetos bons internos, e que sua perda representa um desmoronamento de todo o mundo interno que deve ser reconstruído.

Quando existe a perda de uma pessoa amada, o sujeito acolhe dentro de si a pessoa que perdeu (reincorpora-a), mas também reinstala seus objetos bons interiorizados. Então a posição depressiva mais recuada e, com ela, as ansiedades, os sentimentos de culpa, de perda e de aflição, derivados da situação do seio materno, da situação de édipo e de outras fontes, tudo isso é reativado.

Quando o trabalho de reparação do objeto amado prejudicado está sendo efetuado, se no fundo da mente isso significa um triunfo sobre ele, a reparação fracassa e a culpa não é aliviada. O triunfo sobre o objeto internos que o bebê controla, humilha e tortura é uma parte do aspecto destrutivo da posição maníaca que perturba a reparação e a recriação de seu mundo interno e da paz e harmonia interna. E assim o triunfo impede o trabalho do luto primitivo. A morte da pessoa amada real pode despertar ódio, que na situação de luto é sentida como triunfo sobre o morto, e aumenta a culpa. No luto normal há também sentimento de triunfo sobre o morto, com a conseqüência de retardar o trabalho de luto ou aumentar as dificuldades e dor do enlutado (Simon, 1986).

Da mesma forma como a criança, passando pela posição depressiva, luta em seu inconsciente com a tarefa de estabelecer e integrar o mundo interno, assim também, o individuo em luto atravessa um estado maníaco depressivo, o sujeito enlutado sofre a pena de restabelecer e reintegrar esse mesmo mundo(Klein, 1981).

Para Melanie Klein o trabalho de luto implica na superação das regressões paranóides e dos mecanismos maníacos, ate que o mundo interno seja restaurado. Se a necessidades depressivas não puderem ser superadas pelo enlutado, resultara no luto anormal (excessiva ligação interminável ao morto, indiferença pela perda) ou doença mental.

Certas características do indivíduo podem fazer com que o processo de luto se torne patológico, o que para Freud (1916) era a melancolia, similar ao luto, mas de caráter patológico. Para Melanie Klein (1981) o processo do luto teria grande relação e semelhanças com o estado maníaco depressivos.

Conforme Freud (1916), no luto, há uma perda consciente. Na melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. "A melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”.

“Os traços mentais distintivos da melancolia são um desanimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo, a perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão de recriminação e auto-envelhimento, culminando numa expectativa delirante de punição” Freud (1916). Ainda citando Freud, (1916) o melancólico pode apresentar características de mania. “... o maníaco demonstra claramente sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, procurando, como um homem vorazmente faminto, novas catexias objetais”.Ou seja, há uma busca indiscriminada de outros objetos nos quais o indivíduo possa investir.

O que se poderia dizer afinal é que, a pessoa melancólica coloca a si própria como culpada pela perda do objeto amado. Talvez a grande diferença entre o luto e melancolia para Freud é que no luto o mundo torna-se pobre, vazio e inexpressivo e na melancolia é o próprio ego”.Os sentimentos negativos são expressos contra o self, e a pessoa se torna deprimida, em Freud(1916)”O paciente representa seu ego para nós como se fosse desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível...".

Conclusão

O luto é uma das experiências mais universais desorganizadoras e assustadoras que vivem o ser humano, entretanto a forma como individuo ira viver seu luto que identificara um surgimento de uma patologia (melancolia) ou desenvolvimento de um processo normal de perda.

E para criança diga-se segundo Melanie Klein (1981), ela deve ter absoluto acesso as experiências do luto desde o peito materno, é como ela tem esse acesso que ajudara num desenvolvimento normal do luto.E não é por outro motivo que Kluber-Ross (1997), afirma que o luto não deve ser escondido da criança, assim ela vai perceber que a morte faz parte da vida. A criança aprende que se podem ultrapassar tristezas, apoiando-se nos outros. É como se aprende a lidar com este luto ainda criança que vai nos dar condições de elaborar novos lutos na vida adulta, que seria a prova da realidade descrita por Freud (1916), Melanie Klein (1981).

Passamos por essas fases de luto muitas vezes em nossas vidas, fazendo-se necessário olharmos para nós mesmos e reinvestirmos nossa energia, vivendo dia-a-dia até que tenhamos ultrapassado esses momentos difíceis. Podemos, no entanto, aprender a conviver com a dor, se o trabalho de luto for bem sucedido, pode levar a enriquecimento, transformando-a (sublimação) em um movimento positivo que possa ajudar ao mundo e a nós mesmos.

Por fim é o mais importante ressaltar que, o profissional devera saber diferenciar o processo de luto, normal e a melancolia (Freud, 1916) ou luto patológico Melanie Klein(1981), podendo assim traçar um diagnostico do cliente.

Referências Bibliograficas:

Freud, S. Luto e Melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV, Imago, Rio de Janeiro, 1914-1916.

Kübler-Ross, E. Sobre a morte e o morrer. 8ª edição. Martins Fontes, São Paulo, 1997.

Klein, M. Contribuições à psicanálise. São Paulo, Mestre Jou,1981.

Kaplan,H: Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clinica. 7a edição.Artmed,1997.

Mannoni, M. O nomeável e o inominável. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1995

Simon, R.Introdução a psicanálise:Melanie Klein.3aedição. EPU,São Paulo,1986.